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SUA IDADE BIOLÓGICA PODE ESTAR MENTINDO

Um algoritmo olha para uma foto do fundo do seu olho e estima sua idade. Se ele diz 60 e você tem 55, essa “diferença de idade” de cinco anos é lida como sinal de que seu corpo está envelhecendo mais rápido do que deveria. Esses marcadores biológicos do envelhecimento, ou “relógios do envelhecimento”, já existem para o olho, o cérebro, o tórax, o abdômen e o sangue, e vários estudos associaram diferenças de idade maiores a doenças e à morte.

Um estudo de 55 pesquisadores, liderado pela University College London e pelo Moorfields Eye Hospital, encontra uma falha na forma como esses relógios são lidos.

Cinco relógios, cinco coortes

A equipe construiu ou usou cinco marcadores:

  • Retinal Age, a partir de fotos do fundo do olho (65.360 imagens de 12.141 pacientes em Londres);
  • Chest Age, a partir de radiografias de tórax (21.733 imagens);
  • Abdominal Age, a partir de tomografias computadorizadas do abdômen (4.984 exames);
  • Brain Age, a partir de ressonâncias magnéticas do cérebro (1.454 exames de 808 pessoas);
  • PhenoAge, uma fórmula publicada que combina a idade com nove exames de sangue de rotina (41.512 participantes do UK Biobank).

Os quatro relógios de órgãos são modelos de aprendizado profundo treinados apenas com pessoas sem nenhuma doença registrada e depois testados numa mistura de pessoas saudáveis e doentes. Como em estudos anteriores, os cinco mostraram que uma diferença de idade maior acompanha uma saúde pior — em média, considerando a coorte inteira.

Uma atração para o meio

Todo modelo estatístico desse tipo sofre de regressão à média: suas estimativas são puxadas para a idade média dos dados de treinamento. Os jovens parecem um pouco mais velhos do que são; os idosos, um pouco mais jovens. Isso já era conhecido, e existem correções.

O que a equipe descobriu é que essa atração não é igual para todos. Nos quatro relógios de órgãos, a diferença de idade diminuía com a idade mais depressa nas pessoas doentes do que nas saudáveis. No Retinal Age, por exemplo, a diferença caía 0,31 ano por ano de idade no grupo doente, contra 0,18 no grupo saudável. Os autores chamam isso de regressão diferencial à média. A explicação deles: os sinais de doença tornam a imagem mais difícil de ler para um modelo treinado com pessoas saudáveis, e por isso sua estimativa é puxada com mais força para a média.

Uma associação que se apaga — ou se inverte

A consequência aparece quando os dados são separados por idade. No Retinal Age, cada ano a mais de diferença de idade aumentava em 11% a chance de estar doente abaixo dos 50 anos, mas a ligação desaparecia a partir dos 80. No Chest Age, ela era positiva abaixo dos 40, ausente entre 40 e 70 e invertida depois dos 70: uma radiografia de tórax “com aparência mais velha” passava então a acompanhar, ligeiramente, uma saúde melhor. O Abdominal Age seguiu um padrão semelhante de enfraquecimento.

O Brain Age foi a exceção: a associação continuou positiva em todas as idades. A diferença entre os grupos e a dispersão dos valores encolheram juntas, de modo que a razão entre elas ficou estável. A regressão diferencial à média pode distorcer o quadro, concluem os autores, mas nem sempre o faz.

Nenhuma solução fácil

Os pesquisadores testaram os remédios habituais no Retinal Age. Recalibrar a diferença de idade achatou a tendência nas pessoas saudáveis, mas deixou intacta a do grupo doente. Retreinar o modelo com uma distribuição de idades perfeitamente equilibrada deixou o viés ligeiramente maior. O mesmo valeu para os outros três relógios de órgãos. O PhenoAge, baseado no sangue, que recebe a idade cronológica diretamente como dado de entrada em vez de estimá-la, não mostrou esse viés.

Uma pessoa não é uma coorte

O teste mais marcante compara indivíduos. Dentro de cada faixa etária, a equipe formou pares entre cada pessoa saudável e cada pessoa doente. Em todos os relógios e em todas as faixas etárias, a pessoa saudável tinha a maior diferença de idade em pelo menos um quarto dos pares. No Retinal Age, a partir dos 80 anos, isso aconteceu em 59% dos pares — mais vezes do que o contrário. Alguns pacientes saudáveis pareciam de 8,8 a 16,4 anos “mais velhos” que um paciente doente da mesma idade. Até o PhenoAge errou a ordem em 39% a 41% dos pares.

Ler o relógio por idade

Os autores pedem que as associações sejam relatadas dentro de faixas etárias, e não para coortes inteiras, e sugerem acrescentar aos modelos um termo de interação entre a idade e a diferença de idade — nos dados da retina, isso recuperou a maior parte do desempenho perdido no grupo mais idoso. O estudo tem limites: “saudável” significa apenas ausência de doença registrada, cada relógio foi testado numa única coorte e as análises são transversais. A conclusão, ainda assim, é direta: nenhum desses relógios consegue ainda dizer, sozinho, quão saudável é uma pessoa em particular.

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