COMO A ESCARLATINA AFROUXOU SEU DOMÍNIO SOBRE LONDRES
A escarlatina foi uma das infecções infantis mais temidas do século XIX. Entre cerca de 1820 e 1880, epidemias graves varreram a Europa e a América do Norte. Em meados do século, ela matava cerca de 10.000 pessoas por ano na Inglaterra e no País de Gales, sobretudo crianças pequenas — às vezes em poucos dias, da dor de garganta à característica erupção vermelha e à morte.
Ela é causada pela bactéria Streptococcus pyogenes (um estreptococo do grupo A). A ligação foi estabelecida em 1924 por George e Gladys Dick. E é possível pegá-la mais de uma vez: uma infecção não garante imunidade.
O enigma
Em Londres, as mortes por escarlatina caíram mais de dez vezes décadas antes dos antibióticos — as sulfonamidas chegaram em 1935 e a penicilina em 1945. Ao mesmo tempo, o ritmo das epidemias mudou. Um modelo matemático consegue explicar essas mudanças pela lenta deriva de alguns poucos parâmetros?
Um século de registros semanais
Kevin Zhao e David Earn, da Universidade McMaster, no Canadá, usaram os boletins semanais do Registrar General de Londres:
- mortes semanais por escarlatina, 1842–1939, e casos notificados, 1901–1939;
- nascimentos semanais, mortes por todas as causas e os censos decenais — Londres cresceu de cerca de 2,25 para 8,6 milhões de habitantes no período.
Eles deixaram de fora os registros paroquiais mais antigos, que remontam a 1696: neles, a escarlatina era muitas vezes confundida com o sarampo, e o sistema estava em colapso depois de 1830. Pararam em setembro de 1939, quando 1,5 milhão de londrinos, muitos deles crianças, foram evacuados no início da guerra. As contagens de casos de 1901–1939 foram transcritas de digitalizações de arquivo com a ajuda de ferramentas de IA (ChatGPT e OpenAI Codex), e uma amostra foi conferida à mão.
O que os registros mostram
- Uma epidemia por ano, com pico no outono.
- Por cima, um ciclo plurianual que se alonga: de cerca de 4 anos para cerca de 8 anos entre 1880 e 1920.
- Nesses mesmos anos, as mortes caem de cerca de 2.300 para cerca de 80 por ano.
O modelo
A equipe ajustou um modelo SIR clássico (Suscetíveis – Infectados – Recuperados) às mortes e aos casos ao mesmo tempo. A transmissão sobe e desce com as estações — é maior quando as escolas estão abertas. Eles deixaram três coisas variarem ao longo do tempo: a transmissão média, a intensidade da oscilação sazonal e a proporção de casos fatais, que cai com o tempo, de acordo com uma hipótese histórica de que uma cepa mais branda se impôs por volta da década de 1890. Um segundo método, independente, deu resultados quase idênticos.
Em seguida, perguntaram quais ciclos epidêmicos o modelo prevê em cada período — incluindo as oscilações lentas que nascimentos e mortes aleatórios mantêm vivas — e os compararam com os ciclos observados.
Os resultados
- Quase todas as mudanças no ritmo das epidemias são explicadas por dois parâmetros: o número de reprodução (quantas pessoas um caso infecta) e a intensidade da oscilação sazonal.
- O ciclo longo, de cerca de 3,5 anos em 1842 para 7–8 anos por volta de 1920, corresponde a uma oscilação lenta prevista pelo modelo que depende quase inteiramente do número de reprodução. À medida que ele caiu, os ciclos se alongaram. A queda veio sobretudo de um declínio constante na facilidade com que a doença se espalhava.
- Essas mudanças refletem variações observadas nas taxas de natalidade junto com mudanças inferidas na transmissão, que podem vir em parte da evolução da própria bactéria.
- No caso do sarampo, as mudanças nos nascimentos bastavam para explicar tudo. No da escarlatina, não.
O que continua sem explicação
Um ciclo de cerca de 5 anos antes de 1857, um ciclo de cerca de 3 anos entre 1887 e 1897 e possivelmente outros continuam sem explicação. O modelo também simplifica: supõe imunidade vitalícia (o que não vale para a escarlatina), ignora a proteção que os bebês recebem das mães e supõe uma única troca de cepa.
Ler epidemias em arquivos antigos
O estudo estende esse tipo de análise — já bem-sucedida para o sarampo em Nova York — a uma doença bacteriana e a registros de óbitos, estimando coisas que nunca foram observadas diretamente, como a taxa de letalidade e a transmissão. As mesmas ferramentas podem ser aplicadas a outros registros históricos de doenças infecciosas.
